terça-feira, 23 de março de 2010

O Relativismo do Século XXI

É certo eu deixar o meu blog em total inércia durante meses, sem sequer dedicar a ele uma só palavra, mesmo que tenha sido esse o objetivo de sua criação? Bem, se você for considerar que eu fui uma das cobaias do assodado vestibular 2009, tendo que me dedicar aos estudos até o início de janeiro de 2010 e, posteriormente, sendo submetida ao nervosismo da espera prolongada pelos resultados... Ah, é certo, sim. Embora eu deva admitir que, antes mesmo desse período de infelicidade acadêmica, eu já não era muito fiel a postagens periódicas, deixando constantemente o recinto aberto às moscas.

Então chega até a ser errado eu ter um blog se não posto nele, sendo essa sua função primordial, não acham? Hm, se bem que, se não tivesse, estaria privando-os injustamente, meus caros, de se deleitar com minhas doces palavras. (...) Ok, não estou com moral pra deixar a modéstia ir às favas.

Brincadeiras à parte (é, gente, foi só uma brincadeira, pra descontrair!), talvez, nessa situação, possamos dizer que não existe propriamente um “certo” ou um “errado”. Mas não é bem assim que as coisas funcionam lá fora, na vida.

A cultura que nos é oferecida neste tão ovacionado século XXI, aclamado por suas conquistas e “modernidades”, é uma cultura relativista. Tudo é relativo. Não existe certo ou errado: isso depende de cada um. Encontra-se fortemente disseminado um pseudo-esclarecimento: “eu sou uma pessoa esclarecida porque sei que não existe verdade, que não existe certo ou errado, que isso tudo é ‘moralismo barato’ do século XIX, o qual ainda existe somente por causa de pessoas insistentes em continuar quadradas, sem se modernizarem”. Quem nunca ouviu uma declaração parecida com essa uma vez na vida? Ou quem mesmo não já falou assim alguma vez? Pois é, queridos, infelizmente, esse é o hino à mediocridade, proclamado com tanto alarde.

Primeiro que, por essência, esse é um pensamento contraditório. Afirmar que “não existe verdade” já é querer afirmar uma verdade. Dizer que “não existe certo ou errado” já é querer atestar algo que se julga estar certo. Encontrando essa duplicidade logo na base do pensamento, podemos rapidamente diagnosticá-lo e encontrar as origens de sua existência. É uma premissa falsa, usada para fugir dos incômodos, constrangimentos e contrariedades acarretados pela busca do certo e correção do errado.

Sim, porque procurar o que é certo custa, e muito. Custa a renúncia aos nossos caprichos, ao ímpeto natural do ser humano de querer impor sua vontade às circunstâncias, à satisfação pessoal a qualquer custo. E reconhecer o errado custa tanto quanto: custa o preço do nosso orgulho, da nossa relutância em avaliar nosso comportamento e, de repente, encontrar falhas sérias que precisariam ser reparadas. Resumindo, é um pensamento cômodo, porque não exige que consertemos nossos defeitos e tenhamos de lutar para crescer nas qualidades.

E é uma ideologia moldada às conveniências pessoais. Claro. Aquela artista se comporta de uma maneira tão vulgar... Mas, por quê? Não existe certo ou errado. Ah! Mas se a mulher que está dançando do lado do nosso namorado tem esse comportamento, AÍ SIM, ESTÁ ABSOLUTAMENTE ERRADO! ABSURDO! E não hesitamos em taxá-la logo de P****! Como não?! E tenho dito! (...) Ué, então, quer dizer que se torna uma coisa errada apenas quando concerne a mim, quando me atinge diretamente? Ora, se é errado numa ocasião, é tão errado quanto na outra.

Sem contar que é uma questão filosófica. Sim, porque, se não existe verdade, vamos jogar fora toda a Filosofia, todinha, na lata do lixo. Sócrates, Aristóteles, Platão, Kant, Descartes, Nietzsche, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, todos os filósofos, e suas teorias, vão por água abaixo. É lógico, porque a Filosofia prima por buscar a verdade. Que busca mais insensata seria essa se fosse por algo que não existisse, não é mesmo?

Seguindo nessa linha, joga-se a Matemática fora! Como pode sequer haver tal coisa como Ciências Exatas? Nada é exato! Joga-se o Direito fora. Para que leis? Vejam bem, não estou querendo dizer que todas as leis estejam certas. Mas elas são (tá bom, ou deveriam ser) feitas visando o que é correto, corroborá-lo, torná-lo próprio do dia a dia das pessoas, já que se trata de atingir o bem comum, o que é bom para todos. E por dizer "bom para todos", é no sentido coletivo, e não no individual. Ou seja, se cada um agir de acordo apenas com o que acha que é o que se deve fazer, supondo que não existem regras para isso, tudo vira uma baderna (citando meu saudoso professor de Sociologia, uma basófia!).

Com efeito, eu posso tranquilamente bater no meu irmão se ele acabar com a manteiga, mesmo que ele goste, porque eu adoro manteiga, e como não há parâmetros a se seguir, cada um inventa sua própria lei, posso muito bem fazê-lo, sem culpa. Ou quem sabe posso matar alguém por ter tirado minha vaga numa universidade, já que pra mim, isso é digno de morte (pouco importam os méritos da pessoa que conseguiu a vaga). Pode parecer banal em algumas horas, mas, na verdade, é algo bem sério.

É imprescindível haver um norte para onde se direcionar, conquanto naturalmente nos desviemos dele, como é próprio das nossas tendências humanas. Do contrário, será uma ditadura pessoal, em que cada um viverá de acordo unicamente com seus juízos, independente da repercussão desses para com os demais. Quando se faz o que quer e se é escravo das próprias vontades, em vez de alcançar essa ilusória liberdade prometida, torna-se um tirano que quer, no fundo, ser o dono da razão. E, dessa maneira, obviamente, é completamente impossível existir uma boa convivência social.

Não estou dizendo, devo salientar, que existe alguém dono da verdade em todo e qualquer momento, ou que esteja sempre certo. Não. Nem que tenhamos de adquirir uma visão maniqueísta das coisas ao nosso redor, separando-as em totalmente certas ou totalmente erradas. Não pode ser assim, porque, em muitas ocasiões, há um elevado grau de complexidade. No entanto, do mesmo modo, não podemos ficar em cima do muro, olhando ao redor para ver qual é o melhor lado ao qual pender; relativizando tudo na tentativa de sairmos bem em todas as ocasiões, sem sacrifícios ou dificuldades.

Existe a Verdade, a Mentira, o Certo e o Errado, sim. Se não existissem, estaríamos todos perdidos. E se eu, ambicionando ser jornalista, acreditasse nessa crença limitada das coisas... bem, se ainda conseguisse tirar um diploma, seria para jogá-lo diretamente no lixo. Porque um jornalista quer encontrar verdades, desvendar mentiras. É intrínseco de sua profissão. E pretendo continuar firme nesse objetivo.


Podem atirar a pedra agora, acusar-me de retrógrada, seja lá o que for. De repente, minha mentalidade realmente se encaixaria melhor em tempos mais antigos (e todos sabem que eu era pra ter sido jovem nos anos 60 hahahahaha!). Esse foi um post de inauguração do ano de 2010. Uma tentativa de fazer as pessoas refletirem e tomarem cuidado com essa cultura relativista dominante, que alastra seus tentáculos para todo lado, grudando suas ventosas em mais e mais cabeças. É preciso pensar bem sobre isso.

E também, é claro, foi um desabafo, das indignações que ficam no meu peito provenientes desse assunto, de quando eu o vejo vivo no meu dia a dia. Aqui é meu espacinho né, meu pedaço de ser gente e de me expressar.

Além disso, é bom ter um post desses para conseguir respirar fundo e colocar minha cabeça no lugar na hora que vier aquela pergunta crucial, balançando os nervos...

"Alôôôu, em que século você vive?"

video

John Lennon - Gimme Some Truth

3 comentários:

Anônimo disse...

Singing in the dead of night. Blackbird fly...

Great!

Charlinho!

N. Mazotte disse...

Minha linda!!! Lutar contra a pós-modernidade não é pra qualquer um! hehehe :) Sou sua fã, cada vez mais, calourinha. Amei o texto e je suis d'accord. hehe Te amo muito.BJs Nati

Mari disse...

É, a gente definitivamente deveria se mudar para um museu. hauahuahuahauhauhau
Brincadeiras à parte, nós teríamos arrasado nos anos 60 com nossas saias rodadas e vestidos de bolinha ao som do iê iê iê. hahahahahaha

Eu achei muito interessante você ter falado do relativismo no seu post, porque é exatamente assim que eu me sinto em relação a essa coisa cômoda que é dizer "tudo é relativo". Desculpe, mas não, não é. Eu tenho essa tendência chata de ver o mundo como preto no branco. Sei que às vezes isso me impede de ver os diferentes tons de cinza que ficam no meio, mas é assim que eu sou. E tenho dito.

beijos!